Entry: JORNAL 30.1.06



Joaquim de toda segunda-feira. Boa semana!

Miscelânea de verão

Eu acredito em lendas urbanas e a mais querida de todas é aquela que, ao registro acima de 40 graus nos termômetros, os trabalhadores do Brasil seriam dispensados para suas casas. Não tem feito outra coisa no Rio. Quase 50 graus. Por isso declaro para os devidos fins que me sinto no direito. Fui. Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí atrás do velho samba. Em Maracangalha. Amaralina. Atrás da cajuína escondida em Teresina. Uma tarde ao sol que arde em Itapoã. Viver de brisa em Ibiza. Etc. Tudo, menos crônica com redação própria. Fernando Sabino já escreveu todas as que eram necessárias. Não há mais nada a se publicar por ora. É só sal, é só sol, é só sul, é só sexo. As palavrinhas, que não são bobas, me escaparam todas no doce balanço a caminho do mar. Não as condeno. Corri atrás. Songamongas, elas; sunga branca, eu. Sem culpa. A Justiça do Trabalho apóia e dispensa de idéias de larva própria quem recebe um bafo desses no cangote. Hoje não tem Fernando Pessoa. Nenhuma historinha, nenhum passeio pelos recantos do Rio. Nenhuma pedra no cadáver de John Lennon. Se precisar, mostro o atestado médico liberatório. Está lá: cérebro de fusca. Ferveu. Remédio: jogar água-de-coco no motor. É o que faço, direto de Porto de Galinhas, direto com a mais doce das Dorinhas. Forças tive apenas aquelas para abrir o velho caderno de anotações, o grande amor de cronista, e copiei o que segue. “Se o latim é uma língua morta, por que falam tanto em cunilingus ?”, escreveu Ivan Lessa, um cronista genial que se mandou do Brasil há 40 anos justamente por isso. Gente assobiando e essa calígula do cão. Impossível, 50 graus, cronicar ligeiro. Sérgio Porto compreenderia. Estou mais mole do que bochecha de velha, a imaginação mais dura que bunda de estátua, mais por fora que umbigo de vedete e o papo mais monótono que itinerário de elevador. O aquecimento do planeta me pegou de jeito, e eu me abano apenas com o vento que os grandes pensadores assopraram antes na minha nuca. O caderninho de anotações é o inconsciente coletivo de um escritor. Vai entender o que o levou a registrar, 30 anos atrás, a palavra palpabilidade. Urucubaca. Salacidade. Obnubilado. Apersand. Juvenilidade auriverde. O caderninho de anotações é o bloqueador solar do cronista no verão. Protege os miolos. Ben Schott, escritor inglês, foi mais esperto ainda. Ficou rico com essa preguicite . Abriu seu caderninho doméstico de curiosidades. Fez um livrinho delicioso, “A miscelânea original”, em que junta a relação dos nomes dos diretores do FBI com a letra da “Internacional comunista”, termos militares úteis em somali, a fórmula do dry-martini e milhares de outras informações sem nexo entre si. Nada é dele. Apenas o saque. Como deve ser bom viver de sacação, calção e cação! O livro acabou de sair. Aprendi nele que os nomes do demo começam em anhangá, passam por farrapeiro, mais adiante por sarmento, até tinhoso, tisnado e zarapelho. São 37 as alcunhas do coisa-ruim. Ben Schott deve estar no Caribe cercado das coisas-boas . Talvez no gelo suíço cercado das coisas-quentes . Seguirei seus passos. Só pobres derretem nos caldeirões tropicais de 50 graus. Falta ânimo até para abrir parágrafo. O calor é tanto que passarinho está voando com uma asa. Com a outra ele se abana. Perdão. Mas a lei socorre quem sofre da falta de ventilação nas idéias. Graças a Getúlio Vargas, pai nosso, hoje me dispenso de exibir a humilhação dos miolos fritos descolando sobre o teclado. Solto a mão grande sobre o patrimônio alheio e pego de um, pego de outro, pego de Schott o que ele pegou da Humanidade. Movimento, respiração, sensibilidade, crescimento, reprodução, excreção e nutrição — saibam todos os que não estão mergulhados embaixo de uma onda profunda — essas são as características das coisas vivas. Estou fora delas. Mortinho da silva. Ingleses sabem tudo, e que o graaaande Schott me seja inspiração. Hoje não tem raciocínio em bloco. Inserido no contexto ficava a turma do “Pasquim”. Por ora é tudo descontextualizado pelo suor. Nem escrever, nem pensar. Não convidem esses dois para a praia no Coqueirão, de onde abro minhas anotações de décadas e mando essas notícias. Um dia junto todos os caderninhos que me acompanham. Faço como Schott. Inicio a arrancada para o que interessa. Caribe. Assim. Ponho numa página. Perguntaram a Nelson Rodrigues: “Como vai indo, meu velho?” “Na obscuridade mais profunda”, devolveu o dramaturgo. Noutra página coloco a atriz Mae West. Ela confessou para uma amiga que durante muito tempo se envergonhou da vida que levava. Depois tomou jeito. “Parei de me envergonhar”. Tenho uns quatro cadernos desses, garantia de quatro verões futuros na flauta. Usufruindo do alheio. No sapatinho. Na maciota. Pessoas normais colocam moedas na poupança. Cronistas de jornal, na solidão de seus catres, depositam pílulas desconexas nos cadernos. Torcem para que um dia elas façam sentido. É o que agora tento. Trio Iraquitã, trio Nagô, trio maravilhoso Regina, trio de osso, trio Los Panchos, trio Esperança e trio Parada Dura. Noutra página: Pelé-Coutinho, bipolar, Oscarito-Grande Otelo, dupla exposição, Cosme-Damião, Pé Quente-Cabeça Fria, Jane-Herondy, pedra-testa. Uma miscelânea de verão transforma memória, palavras soltas, frases curiosas, em bolas de frescobol. Joga-se tudo para o alto. Raquetadas ao léu. Pelo menos fazem vento. De Peter Lorre para Humphrey Bogart em “Casablanca”. “Por que você me despreza?”. De Humphrey Bogart para Peter Lorre em “Casablanca”. “Eu te desprezaria se pensasse em você”. Nada necessariamente faz sentido com o toldo que nos faz sombra. A idéia é outra. Trata-se apenas de dar ração leve para que o cerebelo esquerdo não pare de se comunicar com o frontal direito, o que encerraria em definitivo as operações. Miscelâneas são ao gosto. Faça a sua. O ataque do Flamengo no supercampeonato de 1958, os afluentes da margem direita do Amazonas, antigos nomes das ruas do Centro, o número de Helenas nas novelas de Manoel Carlos, formatos de beijos. Ponha tudo no liquidificador. Acrescente gelo, limão, cachaça. Se não der crônica, não esquente. Dá caipirinha. A minha sem açúcar.

   2 comments

Cla
January 31, 2006   12:27 PM PST
 
Eu tinha lido já. Foda, né?

:******

January 30, 2006   06:55 PM PST
 
Joaquim é tudo de bom!!
Iniciei minha semana com essa crônica, de manhã no balanço do 409...
Boa semana para ti tb, querido.
besos

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